Se o casamento é um tipo de superstição, eu não sei, mas
várias superstições permitem ou impedem um casamento.
Meu tio, uma das pessoas mais supersticiosas que já conheci,
entre inúmeros comportamentos moldados por suas crenças, tinha um que de certa
forma era o mais excêntrico, ele só caminhava pela rua na mesma mão dos carros,
se a mão da rua fosse para a direita, para visitar seu vizinho na casa que
ficava do lado esquerdo, ele dava uma volta completa na quadra obedecendo a mão
dos carros. Andar na contramão dá azar, dizia ele. Eu era pequeno quando
convivia com ele, à época, não entendia bem esse comportamento, até hoje acho
que não entendi. Mas era um grande
contador de histórias, uma pena que já tenha partido.
Quando conheceu minha tia, em alguma dessas reuniões
dançantes da vida, se encantou de tal forma que quis namorar. Mas os tempos
eram outros, para cortejar e namorar, era preciso passar pela análise minuciosa
da família da moça, se apresentar, sentar no sofá da sala e responder
questionário digno de investigação policial.
Marcaram a data e minha tia lhe disse o endereço, quando
chegou na esquina da casa, percebeu que era uma rua sem saída, e ali estava
ele, numa encruzilhada terrível, entre a superstição e o amor. Se a mão
contrária da rua já dava azar, imagina entrar num beco sem saída, sem chance.
E assim, triste, voltou pra casa decepcionado. Não foi até a
casa, deixou todos esperando e acabou com tantos sonhos juvenis e românticos
que minha tia tinha feito, além de causar a ira de meu avô, para quem, homem
tinha que ser pontual e ter palavra, era inaceitável para ele essa falha.
Dias depois, encontrou minha tia, e explicou o ocorrido,
para ela, foi muito difícil acreditar no motivo da falta, só quem realmente
conhecia ele iria acreditar, tamanha a singularidade do fato. Deram um jeito,
como todo casal apaixonado faz, e meu tio foi até um aniversário onde meu vô
estava, foi apresentado, interrogado e bastante recriminado pelo ocorrido, mas
meu vô era homem de bom coração e aceitou o namoro, embora sem visitas na casa.
Mandava sempre alguma outra tia minha junto, para fiscalizar os encontros em
outros lugares.
Casaram, tiveram filhos, construíram uma família, e então
meu tio percebeu que o amor é um caminho sem volta, e que de qualquer forma,
ele teve que se entregar e entrar num beco sem saída, mas esse beco, que lhe
trouxe a mulher de sua vida, acima de tudo lhe trouxe muita sorte. Para ele, o
único beco sem saída que traz sorte é o amor.
Andaram juntos, sempre na mesma direção, mas nunca na
contramão.
