Que guri nunca sonhou em ser jogador de futebol quando
criança? Quase todos, eu era um deles.
Nutria três sonhos, ser jogador,
astronauta ou Presidente do país. Ser jogador, na minha análise infantil, era o
mais fascinante e o mais real, e isso era culpa do meu pai, ele que jogando
futebol comigo, no pátio de casa, tomava de propósito todos os gols nas bolas
que eu chutava. Imaginava um estádio lotado, final da Copa, marcando o gol
decisivo e corria para abraçar meu pai para comemorar. Os pais são os
únicos goleiros que ficam felizes quando tomam um gol. Mas o tempo passou, eu
cresci, e a dura realidade futebolística, fez meu sonho se apagar, mas naquelas
manhãs e tardes de domingo, tenho certeza, que pelo menos pro meu pai, eu fui o
maior jogador do mundo.
Com nove ou dez anos de idade, eu já gostava de ler as
páginas sobre política e economia no jornal, senhores de gravata comandando o
país, decisões e leis para mudar o rumo da história, o debate de ideias, de
visões, o Brasil é o país do futuro, sempre diziam, eu queria ser esse futuro,
ajudar as pessoas que apareciam na TV com fome, sem emprego, nas filas de
hospitais, queria estar nas reuniões para decidir os rumos da economia, eu
achava que embora criança, sabia mais que eles, hoje, adulto, e vendo como
andam as coisas nesse cenário, desconfio que eu sabia mesmo. Mas a política, da
mesma forma que atrai, ela repele, e a chama vai se apagando, e o sonho vai se
apagando, assim como uma criança sendo embalada para dormir, e acaba se
tornando apenas uma lembrança da infância.
Quem sabe eu realize o sonho de ser astronauta, partir numa
nave, contagem regressiva, motores ativados, decolar para o espaço, infinito
espaço, chegar até a lua, ver a terra lá de cima, azul, sendo irmã das infinitas
estrelas que vemos de noite, passar pelo cruzeiro do sul, as Três Marias, e
entender que nunca há limite pra sonhar e nunca há motivo pra matar um sonho de
criança, pois se o céu é o limite, o limite é infinito.
A verdade é que o maior sonho, de todos, deve ser, nunca
parar de sonhar, por mais distante ou improvável que pareça, pois o homem não morre quando não realiza, morre quando não sonha.
Cada sonho que realizo, é uma maneira de ser outra vez, a
criança que jogava futebol aos domingos com meu pai.
